terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Faz de Conta...






















Lá estava ela de novo, na sua posição preferida.
Toda enroladinha como se fosse um feto.
Sempre gostara de ficar assim, cabia em qualquer poltrona.
Ela mesma se perguntava o porquê daquela preferência!
E vivia a imaginar!
Como seria voltar ao útero de sua mãe?
Viveria lá aconchegada, protegida.
Nada ia lhe atingir. Sorriu de seu pensamento.
Que idéia absurda.
Começou a se lembrar de seu tempo de criança.
Fora tão feliz!
Recordava-se sempre com saudade
do seu mundo de faz de conta .
Sempre fora solitária,
estava sempre sozinha a correr pelos barrancos dos rios.
Ou sentada num galho de arvore bem alto.
Um dia era uma grande bailarina. Em outro era uma linda fada
Mas o que mais gostava de ser
Era a princesa esperando seu príncipe chegar.
A gata borralheira que iria ao baile com o príncipe dançar.
Sonhava tanto que seu mundo de faz de conta
misturou-se a ponto de não mais distinguir,
qual era o real.
Mas a menina cresceu, e
descobriu que ela era somente a abóbora
que levaria a princesa ao baile.
Tudo foi diferente.
O príncipe virou sapo,
não a cortejou nem a levou ao baile.
Tornou-se a empregada que limpava chão o dia todo.
Nem de seu próprio lar ela foi a rainha.
Pensa nisso tudo, ainda enrodilhada.
Uma lágrima furtiva escapa.
Enxuga rapidamente.
Nem todas nascem para serem princesas.
Cada qual com seu destino, sua história.
Suspira profundamente, espreguiça-se sem vontade,
com o rosto impassível,
onde só os olhos contem uma centelha de vida,
e vai seu dia viver.
Afinal,  uma verdadeira gata borralheira
que se preze tem deveres a cumprir.


Maria Bonfá
24/02/10

7 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Pra vc, Maria, inesquecível e inigualácea pessoa!

*VIA-LÁCTEA

Quando adivinha que vou vê-la, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de rumor de festa…

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta.

Olavo Bilac - XXXIV*

Teadoro!
Aquele abraço + Beijos*************************
Bom hoje sempre!
Renata

Everson Russo disse...

Um beijo minha querida amiga e um dia muito lindo pra ti...

Xanele disse...

Gostei do texto
beijo Xan

Kimbanda disse...

Maria querida.
Essa vontade que dá de voltar ao maior dos confortos que sonhamos ter sido nossos dias no útero de nossa mãe, não sei se é uma coisa comum, mas ao longo dos meus cinquenta e muitos anos foi e é uma imagem que me assalta quando mais só e melancólico estou. É o regresso às origens, é o ir "beber" à fonte o que mais de puro tivemos antes de todas as agruras que se cruzam em nossas vidas e que nos fazem mais amargos e menos felizes.
Também nunca e desde menino e após perder minha mãe, tinha eu três anos de idade, fui alguma vez príncipe e aos onze trabalhava de sol a sol e sem direito a ser criança, trabalho pesado que muito novo me deu grandes problemas de coluna e de saúde.
Olho para trás e me convenço que mesmo podendo não mudaria nada no meu passado. As coisas boas e as atrocidades porque passei. São esses rastos da minha caminhada que fizeram de mim a pessoa que hoje sou e temperam o meu presente e me ensinam a estar, a respeitar os outros como a mim não mo fizeram e fazer das minhas filhotas e neta as eternas princesas e as considero a melhor parte de mim.
Como te compreendo e ao teu estado de espírito que deu lugar a esta postagem tão transparente como é teu hábito partilhares. És com tudo o que te foi imposto e dado viver, alguém que só pode e deve ser muito estimada e acarinhada e com o direito adquirido à felicidade e paz. Desejo-te sinceramente que a encontres pois és inteiramente merecedora.
Bjs. e um kandando a atravessar tanto mar, tanto mar...

Fátima disse...

Acredito que todos tivemos um dia o nosso mundo "do faz de conta"...
Infelizmente, nem sempre a realidade condiz com os sonhos sonhados!!!

Vou confessar que ainda hoje me reconforto em meu mundo do faz de conta, e olha que já deixei longe o tempo em que fui criança, rsrs.

Carinho pra você.

Majoli disse...

Esse faz de conta é a realidade de muitas.

Gostei muito amiga.
Beijos com carinho.

Daniel Savio disse...

Aff, você pode ser todas estas personagens, só não pode deixar de tentar se-las, entendeu?

E deixa deste pessismo...

Fique com Deus, menina Maria Bonfá.
Um abraço.